TEMPOS DE VIOLÊNCIA
(DEZEMBRO - 2009)
A violência é multissecular. A cada ano que surge o ser humano parece estar mais tenso, intolerante e proporcionalmente mais violento. Antes, os homens criavam as suas diversas guerras e em nome do patriotismo ou dos brasões de sua famílias e religiões, destruíam-se em constantes e sangrentos combates.
Veraz, que hoje as guerras são menos freqüentes e de menor duração em decorrência do avanço tecnológico da macabra e nefasta indústria bélica mundial. Mas, a contextura do instinto perverso e cruel do gênero humano alastra-se em maquinações capciosas e persistentes em negação ao bem agir e sentir, só que agora, mais burilados e individualizados, no entanto, não menos bárbaros e doentios.
A pessoa sai de casa e nunca tem a certeza se irá retornar. Hoje, não tememos mais só os bandidos, pois também, o homem comum e integrado socialmente, assassina e agride por qualquer futilidade. E quando ele próprio não mata, garantido pela impunidade quase generalizada, paga a um pistoleiro para matar e fazer ‘justiça’ em seu lugar. A morte de um indivíduo comum como eu, pode ser contratada por dois salários mínimos. Pode uma coisa dessas?... Garanto que meus desafetos não tinham essa informação, estou certo?... (rsrsrs).
É uma discussão no trânsito, um esbarrão, uma transação comercial mal sucedida, um bate-boca entre vizinhos, a perda de uma mulher para o outro, preconceito, etc. A tolerância das pessoas está no seu limite máximo, pois que parecemos sempre aptos a mostrar aos outros que somos muito mais ‘machos’ do que eles.
A legislação penal vigente, elaborada e direcionada para proteger os privilegiados pelo poder, em suas mais diversas instâncias, mostra-se absolutamente ineficaz, a coibir os excessos. Os maus e mercenários profissionais do direito, tornam-se a cada dia mais habilidosos no uso eficaz das brechas e omissões existentes nas leis, livrando dos rigores da justiça todos aqueles que lhes possam pagar os melhores honorários, independentemente do grau de culpabilidade de seus clientes bem aquinhoados. São eles os mais enfáticos incentivadores da irresponsabilidade e conseqüente avanço da violência. Assim como também, as instituições públicas, de maneira especial o aparelho policial e o poder judiciário, representados por suas chamadas “bandas podres”, cada vez mais corrompidas e corruptoras. Felizmente, porém, é tácito que os engenhos de corregedorias, tanto das polícias quanto da justiça, estão cada vez mais eficazes, atentos e atuantes, contra essas minorias de maus serventuários da segurança pública e do aparelho judiciário, em seus respectivos quadros.
Em resumo, não há ainda nesse nosso país, sempre tão espoliado e aviltado por seus colonizadores antigos e modernos, um sentimento de moralidade e de direitos individuais da pessoa, daí essa anarquia pluralizada e consubstanciada, muito bem retratada naquela frase do ex-jogador de futebol Gérson, em um comercial de TV bastante antigo: “Eu gosto de levar vantagem em tudo”.
Hoje em dia, já não existem “malandros”, pois o crime organizado (narcotráfico) tomou conta de todo o espaço da marginalidade, apelidada por raia miúda. A navalha e os calibre 32 e 38 usados pela malandragem antiga saíram de cena. Atualmente, são os fuzis, as submetralhadoras, as granadas, as pistolas automáticas, as bazucas e até – pasmem – as metralhadoras antiaéreas e lança mísseis, que imperam nesse atual império do medo. Eles matam qualquer um: dos seus colaboradores e adversários aos comuns, não livram a cara nem mesmo das autoridades constituídas.
Seriam os bandidos de hoje corajosos ou destemidos?... Qual nada! Simplesmente, quando partem para suas empreitadas delituosas, esses desalmados já vão totalmente “cheirados” (drogados), e com isso, se antecipam a qualquer sentimento de bom senso ou de censura. Corajosos e destemidos são os policiais, que encaram esses bandidos de cara limpa e geralmente no território deles. Bandido só dá uma de corajoso e troca tiros com a polícia quando está de cabeça feita, se tiverem careta, não resistem à investida policial e quase sempre são presos em baixo das camas (mijados e borrados).
Em 23 anos de serviço prestados a extinta FUNABEM, parte destes, cedido à Secretária de Justiça, lotado no DESIPE (Departamento do Sistema Penitenciário) como Agente de Disciplina, depois Encarregado de Disciplina e, por último como Chefe de Disciplina, pude constatar o seguinte:
- O viciado comum, quando drogado, não oferece risco a ninguém, pois o negócio dele é ficar ‘doidão’ e curtir o seu ‘barato’. Risco iminente é produzido pelos usuários de drogas, que sem grana para adquirirem os seus ‘bagulhos’, podem chegar a qualquer prática delituosa para conseguir esse dinheiro, mas aí, não é a droga que está agindo é o desejo de obter a droga adicionado à índole perversa dessa pessoa, por tal, HIPOCRISIA, é culpar a droga por atos de violência, pois que se a pessoa não tiver, em si, o perfil violento, a droga só vai fazer com que ela permute por algum tempo uma nova consciência, ou seja, abandone a real dele e que ele rejeita tenazmente, por uma utópica, onde ele pode ser o que quiser, do ‘Super Homem’ ao ‘Super Star’...
Portanto, os ébrios ou os dependentes químicos de qualquer espécie são residências de espíritos intimamente revoltados com sua sorte e, em decorrência disso, se exilam de suas consciências, produzindo seus cômodos ciclos de inconsciência. Por serem considerados dependentes químicos, são eles praticamente inatingíveis pela legislação em vigor, PORQUE SÃO DOENTES e, com isso, nos agridem com o sustento manifesto público de seus vícios, quando não agridem fisicamente, também os nossos corpos físicos...
Nada de coitadinhos! Já que eles não querem se tratar por livre e espontânea vontade, que sejam recolhidos (eu disse recolhidos e não acolhidos) e submetidos a tratamento imposto por uma legislação adequada e eficaz. Isso não seria nenhuma violação dos chamados ‘direitos humanos’, visto que quase toda a população carcerária já sofre de um ou de ambos os tipos de males citados e, quando em detenção, vêm essas práticas interrompidas e ninguém morre por isso, mesmo sendo feita de forma abrupta, quase que sem assistência terapêutica.
Os adeptos dos direitos humanos hão de argumentar: que tipo de cultura humanitária é essa que defende esse tipo de violência do poder do estado contra os indivíduos reconhecidamente ‘doentes’? E responderíamos tranqüilamente: os poetas; os homens de bem; os pais de família, etc...
Outrossim, do jeito que a coisa anda, ser careta é que é crime, pois nós é quem pagamos caro pelo barato dos caras.
A maior parte dos que usam drogas não são os viciados, e sim, os chamados “usuários eventuais ou recreativos”, que em verdade são os ricos e os de classe média (fidalgos burgueses do barato total), que brindados pela impunidade, acham natural, assim proceder. São esses também, os ascendentes provedores da arrecadação e sustentáculos do tráfico de entorpecentes, por serem a maioria predominante de compradores e que, inclusive, não são de barganhar preço pagando sempre o que é pedido.
O viciado - comum - em drogas é um problema não só para a segurança pública como também para os traficantes, pois eles, quando estão desesperados, fazem qualquer coisa para obter a droga, inclusive dão cano no tráfico e acabam por “sujar” os pontos de vendas com distúrbios comportamentais, que culminam por chamar a atenção da polícia, por isso, tantos deles são mortos diariamente.
Em alguns movimentos poéticos cariocas há alguns “ultras-Babacas” que vivem se drogando nos saraus, isto é, nos ‘saraus dele’s, pois se fizerem isso num em que eu estiver presente, eu de imediato, e na frente deles, ligo para a polícia e os denuncio. Droga e Poesia não se afinam!
Outra doideira são os menores de rua cheirando solvente e outras coisinhas... Quando são acolhidos em abrigos e lá não querem permanecer, voltam ao flagelo da rua, pois são protegidos (ou desprotegidos) por uma lei chamada por Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse ECA mais parece ter sido legislado para as crianças da Suíça, do que para as do Brasil. Graças a este tal de ECA, aliás, eu fico muito a cavalheiro para falar desse Estatuto, pois na época de sua criação eu trabalhava na extinta Funabem e, sempre e a todo o tempo e oportunidade, eu alertava sobre o engessamento que o mesmo produziria nas autoridades, com relação a uma proteção efetiva da criança e do adolescente. Não sei o que foi feito, sequer mesmo se ainda estão vivas, os senhores Edson Seda de Moraes, Caps e Marra, que foram os idealizadores desse monstrengo devorador de perspectivas dos jovens brasileiros excluídos, denominado por ECA... Mas, gostaria que ainda estivessem vivos para verem o fragelo que esse tal Estatuto produziu nas crianças moradoras de rua dessa nação.
Os bandidos maiores cometem crimes e pagam aos menores e às suas famílias – ou simplesmente os ameaçam - para que assumam a autoria de seus delitos, pois eles (menores) são sancionados por penas bastante brandas. Embora, alguns comuns se beneficiem por essa hipocrisia de dependentes químicos e desse tal Estatuto da Criança e do Adolescente, óbvio, que isso não foi criado para eles, e sim, para os protegidos podres dos poderosos, os tão conhecidos “filhinhos de papai”.
Fundamentado no exposto em tela, o cidadão comum e pacífico se arma para sentir-se mais seguro, e aí passa ele a engrossar as fileiras dos chamados machões, se tornando, em verdade, apenas mais um agente de insegurança para o todo social.
Eu particularmente, já fui um desses que precisava estar sempre armado, pois se não estivesse me sentia nú. Por longos anos eu trabalhei como segurança particular, e na área de Segurança Pública, sendo que com isso, introjetei que a arma de fogo para mim, era apenas uma ferramenta de trabalho, porém, mesmo fora do trabalho eu a mantinha sempre comigo em fúnebre parceria. O negócio era tão latente, digo, essa execrável dependência e falsa segurança propiciada pela arma, que eu não conseguia ir a padaria a 100 metros de minha casa sem colocar uma pistola na cintura. Há dezoito anos passados (1991), eu conheci um Ser muito legal e Ele começou a tocar o meu coração, através da Doutrina Espírita Cristã (também chamada por Kardecismo), e a partir daí, eu comecei a me desmascarar e a vislumbrar em mim, o estupendo bobalhão que eu sempre fora.
Com apenas algumas semanas em contato com o Evangelho de Amor do Cristo de Deus, e iniciando a tarefa de me amansar (reformar), decidi não mais me manter cativo no cárcere do medo e do acobardamento. Fui até o terreno nos fundos de minha casa e lá cavei uma sepultura estreita e bem funda, depositando na mesma as duas pistolas 9mm. que eu possuía, ficando com o prejuízo do dinheiro gasto para adquiri-las, mas com a paz de que elas nunca mais iriam ameaçar ou destruir um semelhante meu. Várias vezes nos dias posteriores a esse ‘funeral dos despojos de meu medo inconseqüente’, voltava ao local daquela catacumba e com um regador pulverizava água em abundância sobre a mesma, para que o desgaste dos tais engenhos do desatino fossem o mais precipitado possível. Naquela época o estado não remunerava para desarmar o cidadão.
O trabalho (profissão) que eu exercia continuava a me obrigar ao contato com as armas, entretanto, a partir daí, somente com as armas de serviço e no desempenho da função. Resumindo, e baseado em mim, corroboro: Quem anda armado, não tem munição de fé!
É muito difícil se manter ovelha, quando se vive num mundo onde o homem insiste em ser lobo do outro homem... Mas, com fé em Deus se consegue.
Em verdade, e definitivamente, o que nos falta e sempre faltou aos nossos antepassados, é o sentimento de Deus em nossos corações, e coragem, muita coragem, para não possuir uma arma, e com isso, se transformar em um forte aliado da fraqueza e do conflito por falta de compreensão do Amor. Por fim, o que nos falta também, e sobretudo, é a brandura e a candura das mulheres.
Entre ser um valentão armado e sair por aí dando tiro e porrada nos outros como no passado, ou ser apontado como uma mulherzinha, opto hoje, pelo segundo rótulo... Aliás, alguém viu por aí a minha saiazinha?
Antônio Poeta